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"Lead the Blind by Christopher Reach" |
Sobrepondo todos os desejos com angústia. O mundo é daqueles que mais desejam. Deitado a beira do rio esperando a terra tremer e me jogar lá dentro. A correnteza me levara para campos sem donos, onde erguerei meu castelo. Passo após passo, o céu me acompanha e a terra foge de meus pés. Estará ela mandando-me voar? Lá naquela vila, há um homem que cavou as tumbas de todos, mas seu corpo pereceu coberto por folhas debaixo de um ipê. Quando repleto de fome bati à porta, ninguém abriu, se eu não tivesse partilhado meus pães com os mendigos das estradas, não seria eu mais um deles. Seria meu lado tolo falando mais alto, ou seria outra coisa? Bela moça, conheci e por ela me apaixonei. Fui apoio em caminhos íngremes e abrigo em noites chuvosas. Sentados no vale estávamos, ela disse: estou com sede. E, eu de regresso do rio disse: estou de coração partido e alforje vazio. Assim é a vida e eu não me surpreendo mais com nada. Lágrimas. Não tenho mais. Revolta. Estou seco disto. Esperança. Estou cansado demais. Vago pela estrada empoeirada, onde o vento que me empurra é meu guia. Em minha face um olhar, um olhar sem ires e pupila, desejando um mau dia para os outros viajantes. Dezenas de campos sem donos eu transpus, pisei naqueles que poderiam dar-me a felicidade, mas não consegui senti-los. Meu destino leva para um abismo de morte e neste transe deitarei na tumba cavada pelo corpo do ipê e nem sentirei a terra caindo sobre meu peito. Em que lugar tropecei, onde esta a pedra que me levou para este estado. Atrás de mim, sorrir uma sombra. Ela foi quem me negou ajuda, quando faminto. Ela foi quem me disse para não mais caminhar e me deitar a beira do rio e esperar pela boa fortuna. Ela foi quem escondeu o corpo do homem em baixo do ipê. Ela foi quem levou de mim a moça amada. Mas a culpa de estar cego é minha, apenas minha. A sombra pôs a pedra em meu peito e eu aceitei de braços abertos. E com mais esta prova de que minha alma é fraca, mastigo toda esta angústia. A um passo do abismo da morte, volta à minha face uma derradeira lágrima de súplica a alguém que possa puxar-me de volta neste último instante.
