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"Anamnesis of estivation by Vitaly Alexius Samarin" |
Nós iremos preservar cada lágrima que escorrer de tuas veias e, não mais sedento de teu néctar, o mundo festejará. No último baile da noite, na última noite antes do amanhecer eterno, a todos será permitido entregar-se a impiedade sem dor, nem culpa. Já que a iminência do fim está a se revelar num doce afago de uma fêmea acalentando sua cria. E não é a vida uma cria da morte, como a criatura que objetiva a criação, a vida revela seu sentido ao se suprimir. O fim é a única fonte inesgotável de mel, e dele o princípio brota vigoroso como uma videira em terra fértil. Mas ainda estamos em pé, e festejamos o finalmente. Aqueles que seguram a minha mão, aqueles que eu seguro a mão e aqueles que estão além, todos nós derramamos o vinho de nossas eras para que então vazias nossas ânforas sejas transbordadas de seiva. Durante o precipitar dos últimos grãos de areia, enterramo-nos e todo vinagre de nossa alma está a sorver-se para a profundeza do esquecimento. Para que enfim de nossos peitos a eternidade possa germinar, e seu fruto será uma nova nação tão perfeita quanto é a luz da verdade. Mas o ocaso ainda não engoliu a fome primitiva, e o banquete ainda exala seu êxtase. Sobre a mesa debruçamo-nos e nossas bocas ocupadas nada falam, e na cama deitamo-nos e nossos corpos ocupados não dormem. Você pode ouvir nosso sussurro silencioso, pode sentir as súplicas e os clamores por aquilo que incendeiam nossos espíritos e deixa nossos olhos em brasa, por aquilo que colapsa toda a existência em suas mãos e com um sopro reconstitui tudo em plena perfeição. Os últimos acordes já são ouvidos, as luzes já se apagam e o salão se esvazia. Lá fora no horizonte o amanhecer de mil sois expurgando a terra da noite em derradeiro e para o todo sempre, e as cinzas do que éramos são olvidadas quando os ventos da renovação varrem-nas para o nada. E por fim podemos nos erguer pela última vez e com inocência contemplar o infinito.
