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"The dancer by Magdalena Zagórna" |
Nem cem amigos podem preencher o vazio de um
peito que disse adeus a um amor. A face seca e sedenta sofre se perguntando o
que está acontecendo em seus olhos, buracos negros que nem mesmo a luz deixa
escapar, contudo não o amor, força escrava só de si. E a língua de mármore, que
espanca os ouvidos ao sibilar trevas, queima com o sangue ácido escorrido
daquele coração embrenhado pelos vermes nascidos do vácuo emocional que compõe
o cerne da alma afogada em desamor. No topo da colina, observando-a bailar no
vale, esculpindo-se num manto que no corpo dela seja de caimento perfeito... Se
não fosse a névoa do alto da colina, que todas as formas do vale distorcem, há
muito tempo sobre ela estaria dançando. O rosto dela rasga o seu e é por receio
da dor que prefere encarar a terra, e quando ele se esquece de tal maldita
condição e a face ergue em busca da dela, é invadido por alegria e tristeza, e
o coração pranteia em êxtase e agonia. Ressentido vocifera contra aquela
maldita arte pela qual sua flor foi encantada e dele para longe levada, ao
mesmo tempo deseja dela aprender para assim seduzir também sua flor como
antes por vezes ela fora. Os portões foram abertos e, quem quiser entrar, que
entre sem pedir licença e satisfação dar, e que venham no intuito de ferir,
arrasar e abandonar, pois só uma dor maior pode anestesiar as queimaduras
deixadas pelo iceberg solitário que brotou de seu peito. Apesar de tudo, o que
faz o sangue ainda correr em suas veias e não delas é a esperança ao saber que
nada é eterno, e a mão que agora a conduz um dia há de solta-la e desta vez
será a dele que ela segurará, ao menos é isso que ele espera, é o que ele sonha
todas as noites, é o porquê dele se erguer todas as manhãs, é o porquê dele se
alimentar e nutrir seu corpo, é pelo que ele ora e atormenta os anjos, é pelo
que ele ainda vive e se esconde da morte.
