quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Ela...

"Walk to the Sunset by Rhiannon Mytherea Taylor"

Ela começa entre os pilares de sustento do mundo, e trilha o caminho do vento por lugares onde manadas de búfalos e ratos passaram. À noite ela é estrela esguia levando os navegantes da terra pelos sete vales, ao dia é caminho do sol de leste a oeste, onde o potro nasce e o cavalo morre. Atravessa rochas, circunda montanhas, salta rios e escava a terra, nem céu e nem mar barram seu caminho que transcende o físico e transpassa o etéreo mundo dos sonhos. Legiões por ela marcharam, em barreiras e batalhas lutaram para com o sangue lavá-la. Ela leva o homem a céu e ao inferno, e a mundos há muito esquecidos, perdidos ou renegados. Flui como Nilo no deserto, ou como o Amazonas na floresta, quando tortuosa e delgada é perigosa, e quando larga é tranquila por entre chapadões recobertos de árvores que se curvam a sua margem. Transpõe mil lugares numa só linha contínua que nem a tesoura do tempo e do espaço pode romper. Foi traçada no início dos tempos pelo mesmo dedo que ligou o interruptor do sol e com um peteleco fez o mundo girar. Por ela passeiam o corpo, a alma e a mente de mãos dadas com passos velozes em perfeito compasso, transcendendo a vida, a morte e a ressurreição, levando às novas cidades ou às prisões abissais. Alguns podem viajá-la com um passo, outros necessitam de todo o tempo do mundo. Poderosa e disputada, alguns querem dominá-la, e quando pensam que a tem em mãos, percebem que é apenas um trecho tão curto quanto são as linhas dessas mesmas mãos. Todos nela já andaram, andam e andarão. Mesmo pelos ares ou pelos mares, é caminho de todos os homens, animais, demônios e deuses. Leva ao infinito, circunda as galáxias por baixo das pernas do colosso e finda entre os martelos que rompem os pilares do mundo.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Penas do Tempo

"Romantic Agony by Nadia Asserzon"
Penas e Pedras

Ando sobre penas e pedras. Por todos os senhores do vale dos meus sonhos esquecidos, juro que sou justo para com meus sentimentos. Sou livre, pois sangrei nas pedras e limpei-me nas penas. Ao sangue de meus pais, paguei o tributo que devia. Minha resposta as perguntas que me ferem é meu eterno semblante feliz. Pertenço aos meus instintos com orgulho, já que eles sempre me levam para o melhor da vida. Dia após dia, procuro o portal que sempre me leva para o mundo que somente eu posso entrar e lá sou tudo, menos eu mesmo. E pelas penas e pedras escrevo para o garoto que mora no fundo do abismo, dorme no leito do lago e enamora a Lua. Nessa constante batalha para ser reconhecido como um alto membro dos guerreiros dos campos perdidos da Grécia, sustento meu Símbolo na torre e desejo o Sol, Não a Lua. Prometo a todos que sempre seguirei o Caminho do Andarilho de Penas e Pedras.

Teias do Tempo

Primeiro dia de vida, primeiro momento de morte. Azar a quem tem sorte, desejo divino do dia e da noite dos navegantes dos sonhos fluentes ao vento. Flautas sopram notas melodiosas, sinos ecoam pelo abismo de paredes ressonantes. Gritos repetidos e esquecidos nas teias do Tempo. Ao clamarmos: Vida! Invocamos a Morte pelo ciclo da renovação. Um mundo refletido pela Íris iluminada por uma trêmula chama de uma fina vela sobre um fio de seda que uni os dois lados do abismo: a vida e a morte. Que lágrimas umedeçam as faces, que os gritos arranhem as gargantas, que os punhos cerrados sangrem as palmas, que os joelhos dobrem e que a barragem da alma rache e inunde o abismo até apagar a chama. E ao fantástico mundo traremos fim, quando os olhos infantes cegarem ao passar dos anos. Assim as teias do tempo se tornaram tão concretas quanto as rugas e tão inevitáveis quanto a morte. E digamos: Viva!

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Observando-a Bailar

      "The dancer by Magdalena Zagórna"


Nem cem amigos podem preencher o vazio de um peito que disse adeus a um amor. A face seca e sedenta sofre se perguntando o que está acontecendo em seus olhos, buracos negros que nem mesmo a luz deixa escapar, contudo não o amor, força escrava só de si. E a língua de mármore, que espanca os ouvidos ao sibilar trevas, queima com o sangue ácido escorrido daquele coração embrenhado pelos vermes nascidos do vácuo emocional que compõe o cerne da alma afogada em desamor. No topo da colina, observando-a bailar no vale, esculpindo-se num manto que no corpo dela seja de caimento perfeito... Se não fosse a névoa do alto da colina, que todas as formas do vale distorcem, há muito tempo sobre ela estaria dançando. O rosto dela rasga o seu e é por receio da dor que prefere encarar a terra, e quando ele se esquece de tal maldita condição e a face ergue em busca da dela, é invadido por alegria e tristeza, e o coração pranteia em êxtase e agonia. Ressentido vocifera contra aquela maldita arte pela qual sua flor foi encantada e dele para longe levada, ao mesmo tempo deseja dela aprender para assim seduzir também sua flor como antes por vezes ela fora. Os portões foram abertos e, quem quiser entrar, que entre sem pedir licença e satisfação dar, e que venham no intuito de ferir, arrasar e abandonar, pois só uma dor maior pode anestesiar as queimaduras deixadas pelo iceberg solitário que brotou de seu peito. Apesar de tudo, o que faz o sangue ainda correr em suas veias e não delas é a esperança ao saber que nada é eterno, e a mão que agora  a conduz um dia há de solta-la e desta vez será a dele que ela segurará, ao menos é isso que ele espera, é o que ele sonha todas as noites, é o porquê dele se erguer todas as manhãs, é o porquê dele se alimentar e nutrir seu corpo, é pelo que ele ora e atormenta os anjos, é pelo que ele ainda vive e se esconde da morte.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Último Baile da Noite


"Anamnesis of estivation by Vitaly Alexius Samarin"
Nós iremos preservar cada lágrima que escorrer de tuas veias e, não mais sedento de teu néctar, o mundo festejará. No último baile da noite, na última noite antes do amanhecer eterno, a todos será permitido entregar-se a impiedade sem dor, nem culpa. Já que a iminência do fim está a se revelar num doce afago de uma fêmea acalentando sua cria. E não é a vida uma cria da morte, como a criatura que objetiva a criação, a vida revela seu sentido ao se suprimir. O fim é a única fonte inesgotável de mel, e dele o princípio brota vigoroso como uma videira em terra fértil. Mas ainda estamos em pé, e festejamos o finalmente. Aqueles que seguram a minha mão, aqueles que eu seguro a mão e aqueles que estão além, todos nós derramamos o vinho de nossas eras para que então vazias nossas ânforas sejas transbordadas de seiva. Durante o precipitar dos últimos grãos de areia, enterramo-nos e todo vinagre de nossa alma está a sorver-se para a profundeza do esquecimento. Para que enfim de nossos peitos a eternidade possa germinar, e seu fruto será uma nova nação tão perfeita quanto é a luz da verdade. Mas o ocaso ainda não engoliu a fome primitiva, e o banquete ainda exala seu êxtase. Sobre a mesa debruçamo-nos e nossas bocas ocupadas nada falam, e na cama deitamo-nos e nossos corpos ocupados não dormem. Você pode ouvir nosso sussurro silencioso, pode sentir as súplicas e os clamores por aquilo que incendeiam nossos espíritos e deixa nossos olhos em brasa, por aquilo que colapsa toda a existência em suas mãos e com um sopro reconstitui tudo em plena perfeição. Os últimos acordes já são ouvidos, as luzes já se apagam e o salão se esvazia. Lá fora no horizonte o amanhecer de mil sois expurgando a terra da noite em derradeiro e para o todo sempre, e as cinzas do que éramos são olvidadas quando os ventos da renovação varrem-nas para o nada. E por fim podemos nos erguer pela última vez e com inocência contemplar o infinito.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Algum Outro Eu



"You Soiled My Woods" by Diane Allemandou
   Um profundo toque despertou algum outro eu. Suas asas definhadas se abriram para eclipsar o sol, mas nada além da sombra de um arbusto surgiu sobre a terra. Em seus olhos ludibriados a devassidão de um desejo por possuir todo o mel do mundo, e mesmo assim seus lábios virgens tremem com a brisa do hálito que anuncia o paraíso. Perdido numa noite sem fim ao seguir rumo ao horizonte da carne, sua língua incendeia ao tocar o solo molhado depois de uma chuva de verão. Triture as rochas que brotam em suas costas, nada de bom há de nascer de tanta inquietação! Fechar os olhos é inútil, não fará o mundo desaparecer, e muito menos te despertará para uma realidade de fascínios. Se uma flor brota no jardim, ela será nada além de uma dentre muitas, se uma flor brota no ermo, ela será exaltada como uma raridade. Mas uma flor é apenas uma flor, o que brilha aos olhos é o mundo improvável agarrado por suas raízes. Então abrace esse corpo que te evoca, faça-o tua morada, uma busca à tua fonte da vida, uma jornada para o céu, um cobertor de perdição! A mão nebulosa apanhou-me pelo tornozelo e me aspirou para as profundezas de algum outro eu.  Suas asas ressurgidas se alastraram pela abóboda celestial abafando o flamejante áureo, e nada além de sombras surgiram sobre a terra. Da sagacidade de sua alma verte a pura cobiça de afogar o mundo em sua peçonha, além de seus lábios libidinosos sorverem toda a brisa de Plutão. Arrastando a perdição da carne em meio aos destroços do dia sua língua carboniza a terra maculada depois do festim untuoso. Deite sobre o mármore excretado de suas vísceras, aguarde pelo sabor do fruto de toda brandura assassinada! Tuas órbitas vazadas drenam o mundo e lacrimejam o vazio, e erguerá do nada teu reino de vícios e encantos. A flor que morre no jardim será nada além de adubo para as outras, mas se uma flor morre no ermo, todo o esforço do mundo se perde em vão nas areias do tempo. Mas uma flor é apenas uma flor, o que brilha aos olhos é a satisfação que ela traz ao mundo depois de podada. Então se livre do corpo que te sufoca, uma fuga mundo a fora, a estreia do ocaso da vida, um atalho para o paraíso, o relento da redenção!

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Essa Minha Vida


"Shattered by Stephanie Shimerdla"
   Um golpe de sorte patrocinado pelo destino é a vida. Nada menos suspeito e improvável é esse mundo que me cerca, em sua arquitetura tão selvagem e racional. Como um mar que recusa a formar ondas apesar dos ventos que o açoitam, como uma involuntária e indesejada virtude que foi falsificada pelos meus medos, pelas minhas impossibilidades, como uma anomalia santificada escondida por mentiras é a vida. Cada dia é um agonizante arrependimento, onde o firmamento da alma corroída não mais sustenta as lágrimas que vertem do coração. Poderia haver celebração se o desfecho fosse alcançado pelo caminho excelso, mas é no caminho enfermo que repousa as pegadas, e ao chegar ao cimo da graça a lama dos pés suja o salão. Andar na lama, limpar os pés e esconder o tecido sujo: no mundo medíocre haverá estima enquanto os olhos não se encararem. Sossego misericordioso dessa capa abatida, que resguarda tal vexame ambulante, venha impedir que se desfaça em migalhas. Da boca agredida verte sangue e dor, na busca por alento verte desespero e lágrimas. Sentado à porta trancada, ouço clamores de vingança de quem deveria apaziguar e proteger. Abandonado, amedrontado, angustiado, humilhado, revoltado na noite escura berrando por abrigo, apenas para encontrar um vazio decepcionante. Nu e acossado enquanto o fracasso insiste em torna-se espelho e fantasiar maravilhas de sua óbvia pequenez. Mendigando por alguém que se sente ao meu lado, rejeitado e corrompido pelo suborno de uma amizade. Desilusão. Nada do que foi ensinado me tocou com suavidade. Ser o próprio bom exemplo, ser o próprio refúgio da tormenta, ser a própria boca que aconselha, e caminhar contra a dor que flagela a minha alma. O quê esperar da vida? Esperar algo por quê? Uma mão para segurar, um lenço para enxugar minhas lágrimas, um corpo para eu aquecer, olhos que me vejam, ouvidos que me ouçam, alguém para amar e odiar por todo o sempre. Se a felicidade for a solução que tornará insignificante todas as cicatrizes, que lançará espessa névoa sobre um passado alternado entre o vazio e a aflição, digo que a rejeito. Já que são os entulhos degenerados unidos por sangue, fel e lágrimas que edificam essa minha vida, e não posso desejar nenhuma outra, pois do contrário aspiraria à própria morte. O quê perpetra o pulsar desse coração é a consciência de ser melhor do que qualquer um que ousasse tolamente encenar esse meu golpe de sorte.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Percepções


"The ascend by Ludvigsen"
     A terra estremecida com as batidas de meu coração não pode ser sentida pelos pés que repousam em nuvens. Nas profundezas que habito não distingo o brilho de teus olhos do brilho das estrelas, e muito menos se eles me observam. Nas profundezas que habito tudo é tão obscuro e mais difícil de perceber, e a luz que incide de ti é tão forte que me ofusca. Deixa-me confuso. Deixa-me estranho. Brilhas para o mundo ou brilhas para mim? Daqui é tudo tão igual. Se meus pensamentos vibrassem nesse mundo, todos estariam surdos com o estrondo incessante de teu nome rompendo de minha alma, e queria que assim fosse, mas de minha boca calada e covarde não sai um só sussurro de desejo. Ah! Como eu odeio te adorar, caso apenas te desejasse, te tomava em meus braços e me contentava. Mas não quero só tua carne! Quero é teu carinho, tua atenção, teus cuidados, tua paixão. E com medo de ouvir um não, prefiro não ouvir nada. Sei que um dia, envenenado por esse amor reprimido, enlouquecerei e não mais suportando segurar essa represa, surdo e cego, jorrarei gritando por ti abismo acima. Só espero não passar do ponto, ir além das nuvens, e te assustar. Contudo se ao menos percebesse de ti, que eu ao bater à porta encontraria abrigo para meu coração no teu. Bastaria perceber de ti um quarto dos sinais que todos percebem de mim. Já que apenas os cegos não veem como meus olhos brilham ao te mirar por um breve instante, que é tudo o que suporto sem correr o risco de sumir em ti. Também, apenas os surdos não percebem a devoção em minha voz nas poucas vezes que digo teu nome, pois raramente me atrevo a evocá-lo com receio de por impulso dizer em seguida: ... te amo! Mas se tudo ao mesmo tempo em que é tão velado, é também tão óbvio, por que razão mantém-se tão indiferente? Será que essa indiferença já é para mim a tua resposta? Ou estou tão obcecado em procurar sinais em ti, que não vejo os que tu me mostras espontaneamente? Só temo que ao conseguir finalmente das profundezas que habito sair, a fim de ti alcançar, seja tarde demais, que os ventos tenham levado a nuvem na qual repousas para longe, para muito além do meu toque.